sábado, 18 de junho de 2011

Festival de Parintins: A Verdade Nua e Crua (pelo menos uma parte dela)


(ou TUDO O QUE VOCÊ SEMPRE QUIS SABER SOBRE O FESTIVAL, MAS NÃO TIVERAM CORAGEM DE TE FALAR)

Desde 1998 vou ao Festival de Parintins, que ocorre na cidade de mesmo nome, situada a cerca de 500km de Manaus/AM, quase que religiosamente.

O festival, que antes acontecia sempre nos dias 28, 29 e 30 de junho, e atualmente é realizado sempre no último fim de semana do mês de junho - por razões mercadológicas -, é conhecido pela sua grandiosidade, ritmo contagiante, reduto de originalidade, misturando elementos carnavalescos (não adianta esconder, eles existem) e regionais, com a encenação de lendas e rituais amazônicos derivados do mundo indígena. Algo como uma ópera de aspecto regional e popular apresentada à céu aberto em uma arena onde se dividem os torcedores dos bois Caprichoso e Garantido.

Bom, mas o propósito desse artigo não é ficar descrevendo o festival em si. Isso o leitor encontra em várias revistas, jornais e matérias televisivas, ainda mais nesse período pré-festival, onde todos falam da mesma coisa e contam as mesmas histórias, ano após ano.

Esse ano não vou à ilha Tupinabarana.

Na verdade, se pudesse ir somente para assistir às apresentações e depois voltar pra casa o faria, apesar de ter lido hoje em um jornal de circulação local que tal façanha é possível, desde que o interessado saque de sua carteira de couro volumosa a bagatela de R$900,00 por noite. Mas estou divagando, esse é um outro ponto que vamos discutir, bailando ao som do dois-pra-lá, dois-pra-cá, com direito a coreografia, cocares e todos os demais acessórios.

Muitos amigos de outros Estados, e até mesmo de outros países, ficam  empolgados e agitados quando menciono Parintins nas conversas, mas quando se começa a falar sobre como fazer desse desejo uma realidade as expressões faciais começam a mudar: os olhos ficam arregalados, a boca fica seca, a língua de deixa de se mover, as mãos tremem e pequenas gotas de suor descem da testa oleosa percorrendo a face atônita. Não estamos falando de queda de pressão ou qualquer outra doença, mas sim do susto tomado diante dos custos que essa pequena viagem representa.

Agora vem a parte gostosa. Vamos colocar no papel, o valor de cada gasto, item por item. Mas antes uma observação, esse cálculos serão realizados com base na perspectiva de um turista de classe média comum, aquele que não conhece a cidade de Parintins, não frequenta o “mundo bovino” (não são aqueles que ficam mugindo, é só uma figura de linguagem) e, portanto, não conhece ninguém que o hospede na cidade e que deseja, como qualquer turista, o mínimo de conforto possível.

Já crianças? Titio vai escrever na lousa:

1.            Passagem aérea Manaus – Parintins – Manaus: R$700,00 (por passageiro)
2.            Hospedagem em pousada: R$1.300,00 o casal
3.            Ingressos de arquibancada especial: R$540,00 (para as três noites de festival)
 TOTAL DA BRINCADEIRA: R$2.540,00

Eu falei que esse valor é apenas pra uma pessoa e sem contar as despesas alimentícias e outras mais?

Agora visualize essa quantia de dinheiro e pense que com ela se poderia passar 5 dias de luxo em qualquer capital do País. Ei, você até pode fazer aquele pacote que viu no cartaz exposto na loja da CVC quando passeava pelo shopping: Londres e Paris, por R$1.600,00.

Já estou ouvindo alguém aqui no meu ouvido, falando com aquela voz impertinente:

 - Ah, mas eu vou de barco mesmo, fico em pousada mais barata e vou pra arquibancada geral que é de graça, onde eu posso grelhar e pular com meu boi que é tudoooooooo na minha vida, tá meu bem?

Sem dúvida. Acho que é melhor mesmo colocar um amigo meu em um barco onde vai haver mais três redes por cima dele e mais quatro coladinhas ao lado fazendo companhia, além de poder tomar banho num cubículo medindo 1x1, onde é melhor não ligar a luz pra não ter que ver o que tem no chão e nas paredes e com a mais limpa água barrenta extraída direto do rio. Além disso, eu falei hospedagem em pousada, não um quarto de residência, onde se dorme com mais 20 pessoas entrelaçadas. Sem contar a arquibancada geral, onde não se paga nada, mas o individuo tem que ficar esperando numa fila, desde às 13hs, sob um sol senegalesco e ao entrar no bumbódromo, por volta das 16hs, ficar sentado num bloco de concreto - sob o risco de ir parar no consultório do proctologista com uma hemorroida linda -, ainda sob o sol, até às 20hs, quando finalmente começam as apresentações. Ufa.

Vale ressaltar que não há informações sobre as pousadas, sendo a maioria casas com quartos adaptados, ao estilo “cama e café”. Não há websites na internet. Há uma lista disponibilizada há muito tempo atrás por uma secretaria do governo municipal ou estadual, mas apenas com nomes e telefones. Quer ao menos ver uma foto de onde vai dormir, ainda que seja aquela imagem ilusória que se costuma ver nas páginas dos hotéis na internet? Desista, nem o Google te salva.

Que fique claro, caro leitor, se você for do tipo que gosta de passar o dia inteiro entupindo seu corpo de bebida alcóolica, seja ela cachaça, cerveja, whisky, corote ou tudo junto e misturado, vais adorar seus dias em Parintins nesse período. Caso contrário, o que se pode fazer na cidade é andar, andar mais um pouco e andar até não mais ter pés. E mais, caminhar no meio de uma multidão de pessoas, tentando não ser atropelado, por ruas cheias de copos jogados ao chão, ouvindo carros com caixa de som quase do tamanho de uma alegoria e que tocam tudo, menos as toadas dos bois.

Parintins, a cidade que se orgulha de sustentar uma tradição de mais de cem anos, sequer possui um museu dedicado ao festival e aos bois bumbás para visitação.

Quer ir ao famoso balneário da Soraya? Prepare-se para se deparar com um pequeno ancoradouro de madeira, onde alguns iates e barcos ficam atracados, despejando ali todo tipo de material. Se o visitante tiver sorte, ainda consegue ver pedaços de isopor por ali boiando.

Há passeios que podem ser feitos, claro, desde que o turista encontre informações de como fazê-lo e esteja disposto a pagar um preço tão salgado quanto o bacalhau ou o pirarucu, para sermos mais regionais.

Ao final, já encontrei muitos turistas e sempre que faço a famosa pergunta sobre o que acharam, a resposta é a mesma:

 - Muito bonito, mas não compensa o valor que se paga.    

Não há como negar que as apresentações dos bois são fenomenais e únicas, mas Parintins precisa ser dotada de uma infraestrutura turística capaz de promover mais do que uma aglomeração de pessoas. Os bois falam e cantam sobre preservação todo ano, mas o discurso não reflete a realidade por ocasião do Festival.

Não basta atrair o visitante. É preciso que ele termine essa jornada satisfeito e recompensado, ao ponto de voltar mais vezes à ilha.

Aqui acho que ainda não dá pra se fazer aquele comercial do Mastercard.

Afinal, Parintins tem preço, e é caro.

Por
André Costa de Lima
Em 18.6.2011

O Retorno

Depois de um longo e tenebroso inverno (onde isso em Manaus?), eis que retorno às atividades do blog. Daqui a pouco tem um artigo novo.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Sobre Política no Amazonas

A política no Amazonas é assim, dá pano pra manga a todo minuto. Mas como nem sempre é possível escrever de forma rápida sobre o assunto, tomo a liberdade de transcrever um texto de Aldisio Figueiras, que reflete bem esse momento das eleições barés.


14 de Setembro de 2010

O que rola nos bastidores

Por Aldisio Filgueiras*


Ao contrário do que pensa a minha amiga Vanessa Grazziotin, a próxima senadora do Amazonas será a Sandra Braga. Vanessa já deveria saber disso: no Amazonas é assim, a gente vota num candidato e elege outro. Alguém lembra do Alfredo Nascimento? Pois é, ele foi eleito, mas quem virou senador foi o João Pedro. Alfredo foi parar no Ministério dos Transportes, com a larga experiência adquirida em Manaus no exercício do péssimo serviço de transporte coletivo que ele nos doou quando prefeito. Como faltam poucos dias para as eleições, eu fico pensando nisso nesta manhã de domingo em que umidade relativa do ar não passa dos 60% e me irrita porque sou, como todo amazonense, anfíbio, acostumado a respirar debaixo d´água (gosto de pensar que anfíbios respiram debaixo d´água, não me corrijam, por favor).

O Eron, o outro B do PCdoB, era deputado estadual e enchia o saco do Eduardo Braga até virar secretário da Agricultura, coisa que o Amazonas não tem. Até hoje, Eron, estou esperando o anunciado bacalhau de pirarucu que não sai da gaveta. Meus amigos de todo o Brasil me cobram: que história de pescador é essa, Aldisio? Os vereadores também viram secretários municipais. Ninguém vota em ministro ou secretário de Estado ou do município. Ninguém vota em suplente, mas ele se transforma em titular. No Amazonas, é assim, a gente acaba enxergando o que não vê, graças aos parintinenses, que inventaram um boi que voa.

Outra que foi no papo do Lula é a minha amicíssima Marilene Corrêa. Ela quer ser senadora, mas com aquele batom cor de açaí que ela usa na televisão, sei não. Pois bem, como eu enxergo até o que vejo, sei que o Artur Virgílio é quem vai dialogar com a Sandra no Senado – muito melhor, convenhamos, do que ouvir o Suplicy roncando no plenário. Eduardo vai ser ministro da Dilma Rousseff, tomem nota. Talvez ocupe a pasta dos Transportes, como vingança do Lula, que fez tanto para esconder a incompetência treinada do Alfredo Nascimento, ou a do Meio Ambiente, afinal, só quem acha que sabe mais sobre a Amazônia do que o Eduardo é a Marilene (a Vanessa não sabe nada, por mais que o agrônomo Eron se esforce).

Claro, eu não sou o Durango Duarte, que sabe ler o que está escrito nas estrelas; sou apenas um eleitor, preocupado em saber quem será, enfim, eleito com o meu voto: o ministro ou a senadora do B, neste caso, Braga. Todo mundo é Lula. E como a Dilma não diz nada sobre a sua questão de saúde, quem sabe a presidenta do país não acabe sendo um presidente, Michel Temer? Aí, sim, o PMDB tomaria posse dessas capitanias hereditárias equivocadamente chamadas de Brasil. Mas qual é mesmo o bastidor desse cenário de faz de conta?

Lula jamais escondeu a inveja que tem de Hugo Chávez. E não se cala. Já avisou, mais de uma vez, que vai dar pitico no governo de Dilma (ou de Temer, desculpem, é cruel, mas quem criou o mundo assim?). E pouco se importa quem seja o governador do Amazonas – quem não quer que seja o Alfredo sou eu, mas quem sou eu, que só tenho sete mil (e)leitores e (e)leitoras, diante da força de Lula? Todo mundo é Lula. Vanessa (quem diria) e Marilene são Lula. Qual é o papel (ditado por Lula) dessas senhoras nesta eleição? Tirar votos e, se possível, derrotar o Artur Neto. Lula sabe e já proclamou para (ouçam o que ele diz quando aparece no horário gratuito da Vanessa, e não da Marilene que é “a senadora do Lula e da Dilma”). Lula quer um Senado dócil, que faça tudo que o seu mestre mandar. Só um Senado assim, castrado, é que pode dar ao Lula o mandato eterno. Foi a resistência democrática do Senado que recusou ao Lula a sua igualdade constitucional com Hugo Chávez. Lula não desiste.

Eu sempre reconheci e respeitei o ideário socialista de Vanessa e Marilene, eu próprio socialista, materialista, ateu e marxista, porque não sei de outro tipo de socialista e essa conversa de “correlação de forças”, ou seja, vamos sentar no colo do poderoso de plantão, jamais engoli. Tanto quanto eu saiba, Artur Neto não é socialista, materialista, ateu e marxista. Mas um governo só presta se tiver uma oposição articulada, mesmo que seja insensata. E o que está faltando ao Brasil, hoje e agora, é oposição. Neste momento, não existe vida inteligente no país. Todo mundo respira pelo preço de uma bolsa família, na verdade uma bolha prestes a estourar. Adivinhe quem vai pagar por isso.

* Jornalista, escritor, membro da Academia Amazonense de Letras e do Teatro Experimental do Sesc – aldisio@emtempo.com.br

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Desassossego




"Eu agi sempre,
 Eu agi sempre para dentro
 Eu nunca toquei na vida.
 Nunca soube como se amava...
 Apenas soube como se sonhava amar.
 Se eu gostava de usar anéis de dama nos meus dedos,
 É que às vezes eu queria julgar que as minhas mãos eram de princesa.
 Gostava de ver a minha face refletida,
 Porque podia sonhar que era a face de outra criatura"



(Do livro do "Desassossego" de Fernando Pessoa)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

sábado, 4 de setembro de 2010

MARIANE DE CASTRO



Normalmente, quando se fala em música na Bahia se pensa logo em Axé Music, Ivete Sangalo e derivados, certo? Tá, tudo bem, eu não vou dizer que está errado. Mas nas minhas andanças pela Bahia e algumas pesquisas musicais, eis que me deparo com Mariane de Castro. Cantora nova, baiana, de voz forte e marcante, ao mesmo tempo com a suavidade gingada típica. Mariane de Castro, contudo, revela ser uma cantora compromissada com a cultura popular, de raiz, principalmente o samba de roda característico da região do Recôncavo Baiano, samba esse que é uma variante musical mais primitiva do samba, originário da Bahia, provavelmente no século XIX, tradicionalmente afro-brasileiro e associado a uma dança, que por sua vez está associada à capoeira, sendo tocado por um conjunto de pandeiro, atabaque, berimbau, viola e chocalho, acompanhado por canto e palmas.

Mariane é uma das responsáveis por um projeto em Salvador, chamado "Santo de Casa", onde muitas de suas apresentações acontecem e eu, infelizmente, não tive o prazer de conhecer (me aguarde na próxima), cujo resultado é um CD e DVD ao vivo a ser lançado agora em Setembro, pela Universal Music. Uma artista que valoriza a religiosidade, as tradições e a cultura popular, merece todo o reconhecimento que vem tendo (seu sucesso internacional é enorme).

Nesse blog, você ainda vai ver e ouvir muito das minhas viagens à Bahia e de sua cultura, imagens e sons, portanto vá se acostumando. Como um tira-gosto e de modo que você veja que maravilha de cantora é essa, eis um video de seu sucesso "Abre Caminho" (cujo um dos autores é Roque Ferreira, de quem falarei mais tarde), filmado na praia do Rio Vermelho e por ocasião da festa da Lavagem do Bonfim.

INÍCIO DE TUDO

Aqui começa essa jornada rumo ao desconhecido. Digo isso porque esse é um espaço novo. Mural de idéias. Expor assim, tudo o que penso, o que gosto, o que vejo e o que ouço, não é uma ousadia? Talvez. Só o tempo dirá os rumos que isso vai tomar. Enquanto isso, vamos aos trabalhos e desde já convido você, que visita esse meu cantinho e que eu provavelmente nem conheça, a ficar a vontade. Compartilhe comigo essa experiência.