(ou TUDO O QUE VOCÊ SEMPRE QUIS SABER SOBRE O FESTIVAL, MAS NÃO TIVERAM CORAGEM DE TE FALAR)
Desde 1998 vou ao Festival de Parintins, que ocorre na cidade de mesmo nome, situada a cerca de 500km de Manaus/AM, quase que religiosamente.
O festival, que antes acontecia sempre nos dias 28, 29 e 30 de junho, e atualmente é realizado sempre no último fim de semana do mês de junho - por razões mercadológicas -, é conhecido pela sua grandiosidade, ritmo contagiante, reduto de originalidade, misturando elementos carnavalescos (não adianta esconder, eles existem) e regionais, com a encenação de lendas e rituais amazônicos derivados do mundo indígena. Algo como uma ópera de aspecto regional e popular apresentada à céu aberto em uma arena onde se dividem os torcedores dos bois Caprichoso e Garantido.
Bom, mas o propósito desse artigo não é ficar descrevendo o festival em si. Isso o leitor encontra em várias revistas, jornais e matérias televisivas, ainda mais nesse período pré-festival, onde todos falam da mesma coisa e contam as mesmas histórias, ano após ano.
Esse ano não vou à ilha Tupinabarana.
Na verdade, se pudesse ir somente para assistir às apresentações e depois voltar pra casa o faria, apesar de ter lido hoje em um jornal de circulação local que tal façanha é possível, desde que o interessado saque de sua carteira de couro volumosa a bagatela de R$900,00 por noite. Mas estou divagando, esse é um outro ponto que vamos discutir, bailando ao som do dois-pra-lá, dois-pra-cá, com direito a coreografia, cocares e todos os demais acessórios.
Muitos amigos de outros Estados, e até mesmo de outros países, ficam empolgados e agitados quando menciono Parintins nas conversas, mas quando se começa a falar sobre como fazer desse desejo uma realidade as expressões faciais começam a mudar: os olhos ficam arregalados, a boca fica seca, a língua de deixa de se mover, as mãos tremem e pequenas gotas de suor descem da testa oleosa percorrendo a face atônita. Não estamos falando de queda de pressão ou qualquer outra doença, mas sim do susto tomado diante dos custos que essa pequena viagem representa.
Agora vem a parte gostosa. Vamos colocar no papel, o valor de cada gasto, item por item. Mas antes uma observação, esse cálculos serão realizados com base na perspectiva de um turista de classe média comum, aquele que não conhece a cidade de Parintins, não frequenta o “mundo bovino” (não são aqueles que ficam mugindo, é só uma figura de linguagem) e, portanto, não conhece ninguém que o hospede na cidade e que deseja, como qualquer turista, o mínimo de conforto possível.
Já crianças? Titio vai escrever na lousa:
1. Passagem aérea Manaus – Parintins – Manaus: R$700,00 (por passageiro)
2. Hospedagem em pousada: R$1.300,00 o casal
3. Ingressos de arquibancada especial: R$540,00 (para as três noites de festival)
TOTAL DA BRINCADEIRA: R$2.540,00
Eu falei que esse valor é apenas pra uma pessoa e sem contar as despesas alimentícias e outras mais?
Agora visualize essa quantia de dinheiro e pense que com ela se poderia passar 5 dias de luxo em qualquer capital do País. Ei, você até pode fazer aquele pacote que viu no cartaz exposto na loja da CVC quando passeava pelo shopping: Londres e Paris, por R$1.600,00.
Já estou ouvindo alguém aqui no meu ouvido, falando com aquela voz impertinente:
- Ah, mas eu vou de barco mesmo, fico em pousada mais barata e vou pra arquibancada geral que é de graça, onde eu posso grelhar e pular com meu boi que é tudoooooooo na minha vida, tá meu bem?
Sem dúvida. Acho que é melhor mesmo colocar um amigo meu em um barco onde vai haver mais três redes por cima dele e mais quatro coladinhas ao lado fazendo companhia, além de poder tomar banho num cubículo medindo 1x1, onde é melhor não ligar a luz pra não ter que ver o que tem no chão e nas paredes e com a mais limpa água barrenta extraída direto do rio. Além disso, eu falei hospedagem em pousada, não um quarto de residência, onde se dorme com mais 20 pessoas entrelaçadas. Sem contar a arquibancada geral, onde não se paga nada, mas o individuo tem que ficar esperando numa fila, desde às 13hs, sob um sol senegalesco e ao entrar no bumbódromo, por volta das 16hs, ficar sentado num bloco de concreto - sob o risco de ir parar no consultório do proctologista com uma hemorroida linda -, ainda sob o sol, até às 20hs, quando finalmente começam as apresentações. Ufa.
Vale ressaltar que não há informações sobre as pousadas, sendo a maioria casas com quartos adaptados, ao estilo “cama e café”. Não há websites na internet. Há uma lista disponibilizada há muito tempo atrás por uma secretaria do governo municipal ou estadual, mas apenas com nomes e telefones. Quer ao menos ver uma foto de onde vai dormir, ainda que seja aquela imagem ilusória que se costuma ver nas páginas dos hotéis na internet? Desista, nem o Google te salva.
Que fique claro, caro leitor, se você for do tipo que gosta de passar o dia inteiro entupindo seu corpo de bebida alcóolica, seja ela cachaça, cerveja, whisky, corote ou tudo junto e misturado, vais adorar seus dias em Parintins nesse período. Caso contrário, o que se pode fazer na cidade é andar, andar mais um pouco e andar até não mais ter pés. E mais, caminhar no meio de uma multidão de pessoas, tentando não ser atropelado, por ruas cheias de copos jogados ao chão, ouvindo carros com caixa de som quase do tamanho de uma alegoria e que tocam tudo, menos as toadas dos bois.
Parintins, a cidade que se orgulha de sustentar uma tradição de mais de cem anos, sequer possui um museu dedicado ao festival e aos bois bumbás para visitação.
Quer ir ao famoso balneário da Soraya? Prepare-se para se deparar com um pequeno ancoradouro de madeira, onde alguns iates e barcos ficam atracados, despejando ali todo tipo de material. Se o visitante tiver sorte, ainda consegue ver pedaços de isopor por ali boiando.
Há passeios que podem ser feitos, claro, desde que o turista encontre informações de como fazê-lo e esteja disposto a pagar um preço tão salgado quanto o bacalhau ou o pirarucu, para sermos mais regionais.
Ao final, já encontrei muitos turistas e sempre que faço a famosa pergunta sobre o que acharam, a resposta é a mesma:
- Muito bonito, mas não compensa o valor que se paga.
Não há como negar que as apresentações dos bois são fenomenais e únicas, mas Parintins precisa ser dotada de uma infraestrutura turística capaz de promover mais do que uma aglomeração de pessoas. Os bois falam e cantam sobre preservação todo ano, mas o discurso não reflete a realidade por ocasião do Festival.
Não basta atrair o visitante. É preciso que ele termine essa jornada satisfeito e recompensado, ao ponto de voltar mais vezes à ilha.
Aqui acho que ainda não dá pra se fazer aquele comercial do Mastercard.
Afinal, Parintins tem preço, e é caro.
Por
André Costa de Lima
Em 18.6.2011
Tem gente quando escreve no seu blog, faz com que a gente viaje na leitura. Mas, alguns assuntos fica notório a bajulação. Sei que, muitas vezes, é muito difícil de pôr sua opinião, principlamente quando vai contra 80% de um GRUPO que não aceita uma outra visão. Quero dizer que de todas as matérias sobre o Festival de Parintis, a sua matéria Andre Lima, foi a melhor que li. Não aguento mais mesmice na arena e nem na leitura. A verdade, somente a verdade. Que diante de tanto custo e sofrimento, fico me perguntando: que paixão é essa que nos faz ficar cego, diante de tanto sofriemento? E paixão se explica? Não, apenas vive. rs . Eu sou apaixonada pelo Festival de Parintins!
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